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Relato sobre minhas perdas gestacionais

Mãe de 2… Ou melhor mãe de 4 (ou 5?)


O título pode soar estranho, mas aos poucos você entenderá!

Escrevi este texto durante uma madrugada, enquanto esperava a febre da minha filha ceder.

Eu sempre quis ser mãe, nunca questionei isso! E tive mais certeza quando fiz minha graduação e pós-graduação. Sou psicóloga com especialização em Psicologia da Infância. A teoria sempre foi linda e a prática de atender aquelas crianças, mesmos em UTI hospitalar, foi apaixonante!

Um determinado dia enfim tinha chegado a hora de ir atrás deste sonho, parei de tomar anticoncepcional e a cada mês sentia o meu corpo voltando ao seu estado natural. Foram aproximadamente 6 meses até que eu engravidei! Nossa que sonho comprar aquele teste de farmácia! Que sonho idealizar formas lindas de contar sobre a gravidez! Pois é, foi tudo um sonho…

Apenas alguns dias depois comecei a ter uma borra e meu sonho se transformou num pesadelo. Foram dias de medo, insegurança, ansiedade, espera, exames, ultrassons até que veio o baque: “sua gravidez não vingou, vamos esperar seu corpo expulsar o embrião ou faremos uma curetagem”. Oi? Parem, não me belisquem, me deixem dormir e sonhar! Mas não pude! Tive que encarar aquela dura realidade! Fui internada para a fazer a curetagem e depois de voltar da anestesia geral eu só conseguia perguntar diversas vezes muito grogue: “e ai, conseguiram tirar tudo? Não machucou meu útero?”. Fui então encaminhada a uma sala de pós operatório onde me vi cercada por pelo menos 15 mulheres, todas felizes e me perguntando: “e ai, o que é o seu bebê?”. Isso mesmo, todas em recuperação pós parto e eu ali sem saber o que dizer ou pensar…

Era a hora de encarar a vida, contar para as pessoas que nosso sonho tinha terminado temporariamente e consolar as pessoas que sofriam junto. Neste momento não sabemos o que pensar e naturalmente me voltei para a minha profissão. Tive um convite para mudar de função. Perfeito! Foco em outro assunto até que meu corpo (e mente) se recuperasse de tudo aquilo!

Meses se passaram e percebi que era a hora de tentar de novo. E como num passe de mágica engravidei no primeiro mês que tentei!! Que alegria!!! Digo, que medo!!!! Alegria não era mais o sentimento daquele momento, o medo pairava no ar o tempo todo. Assim que peguei o resultado do beta altíssimo fiquei aliviada: ufa tá alto!!! Mas ao mesmo tempo pensei: caraca podem ser gêmeos!!! Alegria e medo duplicados!!! Desta vez não contaríamos a ninguém até fazer o primeiro ultrassom e víssemos que estava tudo bem com o bebê (ou bebês). Tudo estava caminhando maravilhosamente bem desta vez, nenhum sangramento, nem enjôo, nem dores… enfim chegou o dia do exame. Fomos animados e ansiosos para ver nosso sonho finalmente se tornar realidade, mas como num passe de mágica novamente tudo desmoronou!! Só me lembro de escutar frases como: “Quando foi mesmo sua última menstruação? Você já teve ovulação tardia? Aqui temos realmente dois sacos gestacionais, mas não têm embriões neles”….. Socorro o que significava tudo aquilo??? Seria mãe de gêmeos?? Não seria mãe de ninguém???

Dias e mais dias de medo, muito medo! Ansiedade e tristeza já faziam parte do meu ser ou o que sobrou dele! Voltei para casa naquele dia num profundo silêncio e chorei muito. Novamente tinha que esperar para saber se iria evoluir ou não, se meu corpo expulsaria ou não…. Procurei uma clinica de fertilização e pedi que nos virassem do avesso para entender porque aquilo tudo estava acontecendo de novo.. Ouvia o médico dizer: “Juliana pode ser apenas uma coincidência, é muito comum perdas no início da gestação, só investigamos a partir da 3a perda”. Como?? 3a perda??? NÃO!!! Não quero passar por isso de novo!!!

Alguns dias depois me internei para mais uma curetagem, desta vez em um outro hospital para evitar o “pós parto”. A principal diferença desta vez é que não tinhamos contado a ninguém, então foi um sofrimento ainda mais calado! Após a curetagem, começou a maratona de exames, foram mais de 50, de todos os tipos, de sangue a genético! Chegou uma hora que não conseguiam mais coletar sangue de tão machucadas que estavam minhas veias.

Se achei que tinha passado por dias difíceis e aflitivos, os dias seguintes foram mil vezes piores. Ansiedade na espera dos resultados, misturada ao otimisto quando saiam resultados positivos e pavor quando inventava de me diagnosticar com Dr Google! Eu sofria calada, sozinha, não podia sair contando, tinha medo, tinha vergonha… E todo mundo perguntando quando tentariamos de novo… Eu só pensava no meu corpo se recuperando de toda aquela invasão… Hormônios da gravidez, remédios para “segurar”, depois para “expulsar”, depois para me recuperar, que bomba!!

Nesse momento a fé foi o que me fortaleceu! Eu nunca perdi a esperança e a crença de que eu seria mãe! Eu nasci para ser mãe! Se Deus não me desse a oportunidade de gerar um bebê no meu ventre, eu adotaria um! Mas não desistiria do meu sonho!

Foco em outra coisa novamente, dessa vez mudança de casa! Nunca vi acontecer tão rápido! Aproximadamente 3 meses depois já tínhamos vendido o apartamento, comprado outro, reformado e 3 dias antes de mudar eu passei sozinha no apartamento novo para checar a colocação dos armários. Tinha achado estranho que minha menstruação não tinha vindo naquela manhã como sempre acontecia, e mesmo não querendo pensar naquilo, comprei um teste de farmácia. Antes de voltar pra casa antiga, me vi sozinha na casa nova e comecei a chorar muito! Queria fazer o teste, mas tinha muito medo. Medo de dar positivo e ter que passar por tudo aquilo de novo. Fiquei chorando e rezando por alguns minutos, até tomar coragem e fazer o teste… Logo apareceram os dois riscos. Eu só consegui chorar, chorar, chorar, chorar… Não sabia o que fazer! Respirei e comecei a tentar raciocinar! Desta vez tivemos que contar pra algumas pessoas próximas sobre a gravidez, pois teria que fazer a mudança e precisariamos de ajuda, eu não podia carregar nenhuma caixa sequer!

Casa nova, sonhos novos e muitos exames!! Não preciso dizer a quantidade de exames de sangue que fiz para acompanhar se o beta estava subindo até chegar a hora de fazer do assustador “primeiro ultrassom”, um trauma! Domingo, 7hs da manhã já estávamos no laboratório. Ninguém se falava e eu mal respirava para me controlar. Deitei então para o exame e quando o médico me disse: “Bom dia, tudo bem?”. Eu desabei e respondi: “Não!! Não está nada bem!! Estou com muito medo!!” E ele, como um anjo, me acalmou e iniciou o exame. E sem me deixar mais ansiosa, já foi logo dando zoom e aumentando o som para dizer: “Se acalme! Olha aqui seu bebê e o coração batendo!”. Não sei como ainda tinha lágrimas, mas tinha!!! Naquele momento foi um choro de alegria, medo, alivio, insegurança, já disse medo? Risos… O medo não sumiu! Ele me acompanhou durante toda a gestação, que correu tranquila, apenas com um sangramento na 9a semana. Era normal diziam os médicos, e eu tentava acreditar! Eu curti demais cada segundo da gestação, pensava que nada podia ser pior do que eu já tinha passado. Era tudo maravilhoso? Claro que não, mas eu escolhi passar por aquilo e me sentia muito mais fortalecida depois de duas perdas.

Nasceu então meu grande sonho, a Fernanda! Minha princesa linda, encantadora! Não é porque é minha filha, mas já nasceu linda! Eu olhava pra ela e agradecia por tamanha perfeição! Era a hora de encarar os tais desafios da maternidade pra valer, mas depois de todos os desafios já percorridos, a prática nem ficou tão distante de toda a teoria que eu já conhecia e acompanhava com meus pacientes. Nos primeiros dias, o desespero bateu com a tal queda radical dos hormônios pós parto. Eu sabia que isso existia, mas achei que estava preparada e tiraria de letra.. Doce ilusão! Eu chorava e dizia: não é que essa meleca de hormônio faz chorar meeeesmo, e desabava!!!! Eu via grávidas na rua e pensava: coitadaaaa!! E chorava!!! Mas Deus é sábio e faz a gente sofrer de uma amnésia pós parto! Simplesmente esquecemos a pior parte de tudo que passamos e quando nos damos conta, tomamos coragem e encaramos toda aquela loucura novamente!!

E foi assim que, depois de 2 anos e meio do nascimento da Fernanda, nascia minha segunda princesa, a Giovana! Meu segundo sonho em forma de gente!!! Acham que foi tranquilo? Claro que não!!! Chorei quando descobri, madruguei pra fazer o primeiro ultrassom e tive os mesmos medos que das outras vezes, mas um pouquinho mais controlada (eu acho rss). Como já tinha a mais velha para cuidar, o foco não ficava apenas na gestação, acho que essa era a minha sorte!

A maternidade tem muuuitos desafios, que podem se tornar assustadores, como a amamentação, o sono (ou a falta dele), o desenvolvimento dos bebês, hormônios, solidão, frustrações, etc. Mas quando tudo isso passa (acreditem que passa!), percebemos como crescemos e como nascemos com um dom de superar todas as adversidades que nos são impostas! E o que a maioria não sabe é que os desafios começam algumas vezes quando recebemos (ou não) o nosso tão esperado “positivo”!

Conheci um novo mundo, um mundo de mulheres que sofreram como eu, ou que ainda sofrem pelo sonho de ser mãe! Um sofrimento calado, solitário, muitas ainda não tiveram coragem de se abrir, muitas sequer um dia vão se abrir. Mas ao vivenciar minhas perdas, percebi quantas pessoas passaram e passam pelo que passei, realmente é MUITO mais COMUM do que pensamos que possa ser!

Durante todo meu processo eu tive apoio de pessoas fundamentais, que me acompanharam indicando exames, médicos, dando colo… Algumas pessoas eu já conhecia e eram amigas, outras surgiram virtualmente em fóruns sobre o tema, e hoje são mais próximas do que muitas pessoas que fazem parte do meu dia a dia, porque juntas sofremos a mesma dor, juntas superamos a mesma dor, e juntas ajudamos umas às outras!

Se estou contando isso hoje, é porque tive apoio para ter forças e não desistir! E olhando para trás, encaro tudo isso como uma missão, que precisava passar por tudo isso para ser a mãe que sou hoje! Muito mais forte, segura e confiante de que no final tudo dá certo! Como parte desta “missão”, busco me capacitar para ajudar estas mulheres que tanto precisam de ajuda. Acabei me tornado uma referência entre amigas que sempre me procuram para dicas e saber minha opinião. Eu ajudo e conto tudo o que sei e passei, pois foi assim que cresci, com a ajuda de várias pessoas!

Para finalizar (ufa, rs…) gostaria de deixar uma mensagem: as coisas nem sempre vem no tempo em que queremos, mas acreditem sempre e nunca desistam de seus sonhos!

Conheça nossos encontros e rodas de conversa e não deixe de me procurar, mesmo que confidencialmente, para falar sobre o tema.

Um abraço carinhoso,

Juliana, mãe da Fernanda de 6 anos, da Giovana de 4 anos e de mais 2 (ou 3) anjos que tornam hoje o céu mais estrelado e iluminado!